O cliente não compra o que seu produto é. Compra o que seu produto resolve. Parece óbvio — e é exatamente por isso que tanta empresa erra, inclusive nas redes sociais de hoje.
Por Leandro Novis · C-Advisor
Ninguém quer comprar uma broca de um quarto de polegada. Quer um furo de um quarto de polegada.
Theodore Levitt“Marketing Myopia”, Harvard Business Review, 1960Abra o Instagram de dez empresas brasileiras de médio porte e a maioria vai descrever o próprio produto: material, especificação, funcionalidade, diferencial técnico. Poucas vão dizer, com a mesma clareza, qual problema real do cliente aquilo resolve. Levitt chamou isso de miopia em marketing — e mostrou que ela não é um detalhe de comunicação, é a razão pela qual indústrias inteiras desaparecem.
O exemplo clássico dele são as ferrovias americanas, que se viam como “negócio de trem” em vez de “negócio de transporte” — e perderam para o caminhão e o avião por não perceberem que o cliente nunca quis o trem, queria chegar ao destino.
Miopia em marketing é definir o negócio pelo produto que se vende, em vez de pela necessidade que se resolve. É uma armadilha sutil porque, de dentro da empresa, o produto é o que existe de mais concreto — é fácil confundir “o que fazemos” com “o que o cliente busca”.
O post nas redes sociais é sobre o produto, nunca sobre o cliente. Especificação técnica, foto do produto, preço — sem nunca mostrar a situação real que ele resolve na vida de quem compra.
A empresa se define pelo que fabrica, não pelo problema que resolve. "Somos uma fábrica de X" soa mais restritivo do que "resolvemos o problema Y para empresas que precisam de X".
Quando as vendas caem, a resposta é melhorar o produto, nunca questionar se o produto ainda é a melhor resposta para a necessidade do cliente. É o mesmo erro das ferrovias, atualizado.
A correção não é abandonar detalhes técnicos — é hierarquizar a comunicação. O detalhe técnico existe para provar que o produto entrega a necessidade, não para substituir a explicação da necessidade em si.
O cliente não lê sua lista de funcionalidades. Ele procura a confirmação de que você entende o problema dele.
A frase da broca resume mais de sessenta anos de marketing em uma imagem simples, e continua incômoda porque a maioria das empresas ainda comete o mesmo erro, só que com uma vitrine digital nova. Redes sociais deram a qualquer empresa um megafone para falar de si mesma — e é justamente por isso que a disciplina de falar da necessidade do cliente, e não do próprio produto, se tornou mais rara, e mais valiosa, do que nunca.
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