Lean parece coisa de fábrica de automóveis. Mas os desperdícios que Taiichi Ohno descreveu na Toyota aparecem todos os dias em escritórios brasileiros: propostas refeitas, aprovações paradas, relatórios que ninguém lê, retrabalho na implantação.
Por Leandro Novis · C-Advisor
Os custos não existem para ser calculados. Os custos existem para ser reduzidos.
Taiichi Ohnofrase atribuída ao criador do Sistema Toyota de ProduçãoTaiichi Ohno foi o engenheiro que, ao longo de décadas na Toyota, desenvolveu o sistema de produção que inspirou o movimento lean no mundo todo. Em seu livro sobre o Sistema Toyota de Produção, ele descreve uma obsessão: eliminar tudo o que consome recursos sem acrescentar valor para o cliente.
Ohno insistia que a maior parte do tempo nas operações não é trabalho que agrega valor. É espera, movimento desnecessário, correção de erros. Reduzir isso aumenta a capacidade sem contratar e sem investir em equipamentos.
Antes de contratar mais gente, pergunte quanto do trabalho atual é desperdício.
Superprodução. Fazer mais do que o necessário ou antes da hora: relatórios que ninguém pediu, propostas detalhadas para oportunidades não qualificadas.
Espera. Documentos parados aguardando aprovação, cliente esperando retorno, projeto parado por falta de informação.
Transporte. Informação passando por muitas mãos e sistemas: e-mails encaminhados, planilhas copiadas, dados redigitados.
Processamento excessivo. Mais etapas ou detalhes do que o cliente valoriza: aprovações em cascata, formatação excessiva, controles redundantes.
Estoque. Trabalho acumulado e não concluído: propostas pela metade, chamados abertos, projetos iniciados e parados.
Movimento. Esforço desnecessário de pessoas: procurar arquivos, alternar entre sistemas, buscar informações dispersas.
Defeitos. Erros que exigem retrabalho: proposta com preço errado, implantação refeita, fatura corrigida.
Ohno ensinava a perguntar por que repetidamente até chegar à causa raiz de um problema, em vez de tratar o sintoma.
Ohno defendia que gestores fossem ao lugar onde o trabalho acontece, em vez de decidir por relatórios.
Na Toyota, a produção era puxada pela demanda real. No escritório, isso significa limitar o trabalho em andamento e terminar antes de começar algo novo.
Com custo de capital alto e mão de obra qualificada cara, cada hora desperdiçada pesa mais. Empresas médias brasileiras costumam ter processos administrativos que cresceram por acúmulo, sem desenho. Antes de automatizar esses processos com IA, vale aplicar o olhar de Ohno: muitas etapas não precisam ser automatizadas, precisam ser eliminadas.
O legado de Ohno vai muito além da fábrica. A ideia de que a maior parte do esforço de uma organização não gera valor vale para qualquer empresa. Para negócios brasileiros pressionados por custo, aprender a enxergar os sete desperdícios é uma forma de ganhar capacidade sem gastar mais.
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