O comprador pede desconto e o vendedor concede, porque teme perder a venda. Em muitas empresas B2B brasileiras, esse ritual se repete em quase toda negociação. Kotler explicaria que o problema não está no preço. Está no valor que o cliente não está enxergando.
Por Leandro Novis · C-Advisor
Valor para o cliente é a diferença entre todos os benefícios e todos os custos de uma oferta, tal como o cliente os percebe.
Philip Kotlersíntese de Marketing ManagementKotler descreve a decisão de compra como uma comparação. De um lado, o valor total percebido: o desempenho do produto, os serviços que acompanham, a qualidade do relacionamento e a imagem da empresa. Do outro, o custo total percebido: o preço, mas também o tempo, o esforço, o risco e o desgaste de trocar de fornecedor.
O cliente escolhe a oferta em que essa diferença lhe parece maior. Repare na palavra que se repete: percebido. Não importa o valor que a empresa entrega; importa o que o cliente enxerga.
Quando o cliente só enxerga o preço, ele só negocia o preço.
Diante de uma objeção de preço, a maioria das empresas mexe apenas no preço. Kotler mostra que há outras formas de aumentar a diferença:
Aumentar os benefícios percebidos. Mostrar resultados, garantias, serviços incluídos e diferenciais que o cliente não estava considerando.
Reduzir os custos não monetários. Diminuir o risco percebido, o tempo de implantação, o esforço de troca e a incerteza.
Só então discutir o preço. E, quando discutir, trocar concessão por contrapartida: prazo, volume, referência ou escopo.
Comprador B2B precisa justificar a compra internamente. Se o benefício não vira número, ele não sobrevive à reunião de aprovação.
No Brasil, o comprador teme mais errar do que pagar caro. Reduzir o medo pode valer mais que reduzir o preço.
Todo problema não resolvido tem um custo que o cliente paga todo mês. Torná-lo visível muda a comparação.
A consequência dessa lógica é a precificação baseada em valor: o preço passa a ser definido pelo valor percebido pelo segmento-alvo, e não apenas pelo custo mais uma margem. Empresas que fazem isso conseguem cobrar mais de quem percebe mais valor e desenhar ofertas mais simples para quem percebe menos, sem destruir a tabela com descontos caso a caso.
A lógica de valor percebido de Kotler é simples e frequentemente ignorada. Num mercado brasileiro em que o comprador está sempre pressionado por custo, a empresa que consegue mostrar valor com clareza vende com mais margem, fecha mais rápido e constrói clientes que não trocam de fornecedor pelo primeiro desconto oferecido.
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