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Os problemas de hoje vêm das soluções de ontem: o pensamento sistêmico de Senge para empresas que vivem apagando o mesmo incêndio

O desconto que salvou o trimestre derrubou a margem do ano. A contratação que resolveu o gargalo criou conflito entre áreas. O sistema novo que prometia controle gerou retrabalho. Senge abre seu livro mais famoso com uma frase que descreve exatamente esse padrão.

Por Leandro Novis · C-Advisor

Os problemas de hoje vêm das “soluções” de ontem.

Peter SengeA Quinta Disciplina, 1990

A quinta disciplina

Em A Quinta Disciplina, Peter Senge, do MIT, descreveu cinco disciplinas que permitem a uma organização aprender continuamente: domínio pessoal, modelos mentais, visão compartilhada, aprendizagem em equipe e pensamento sistêmico. A quinta, que dá nome ao livro, é a que integra as outras.

Pensamento sistêmico é a capacidade de enxergar inter-relações em vez de eventos isolados, e padrões de mudança em vez de fotografias. Na prática, é parar de perguntar “quem errou?” e começar a perguntar “que estrutura está produzindo esse resultado repetidamente?”.

Quando o mesmo problema volta com outra cara, a causa não está nas pessoas. Está na estrutura.

Algumas leis da quinta disciplina

Senge lista um conjunto de leis que ajudam a reconhecer o pensamento não sistêmico. Algumas são especialmente reconhecíveis em empresas brasileiras:

01

Os problemas de hoje vêm das soluções de ontem. Desconto para bater meta educa o cliente a esperar desconto no fechamento do próximo trimestre.

02

A saída fácil normalmente leva de volta para dentro. Resolver falta de vendas contratando mais vendedores, sem resolver a qualificação, só aumenta o custo do mesmo problema.

03

Causa e efeito não estão próximos no tempo e no espaço. A queda de renovação deste ano pode ter nascido numa mudança no processo de implantação feita há dezoito meses.

04

Mudanças pequenas podem produzir grandes resultados. O ponto de alavancagem raramente é o mais óbvio, mas, quando encontrado, exige pouco esforço para muito efeito.

Três níveis de explicação

01

Eventos

O que aconteceu: perdemos um cliente grande, a margem caiu, o projeto atrasou. Explicações nesse nível geram reação.

  • Registre o evento com fatos, não com culpados
  • Evite decisões estruturais baseadas em um evento isolado
  • Pergunte se isso já aconteceu antes
Tipo de respostaReação
Pergunta típicaO que aconteceu?
LimiteTrata o sintoma
02

Padrões

O que vem acontecendo ao longo do tempo: perdemos clientes grandes todo ano no segundo semestre. Explicações nesse nível permitem antecipação.

  • Olhe séries históricas, não só o último mês
  • Procure repetições e tendências
  • Compare períodos e segmentos
Tipo de respostaAntecipação
Pergunta típicaIsso vem se repetindo?
LimiteAinda não explica a causa
03

Estrutura

O que produz o padrão: metas, incentivos, processos, fluxo de informação. Só nesse nível a mudança é duradoura.

  • Desenhe as relações de causa e efeito
  • Identifique incentivos que reforçam o problema
  • Procure o ponto de alavancagem
Tipo de respostaTransformação
Pergunta típicaO que está produzindo isso?
LimiteExige tempo e honestidade

Um exemplo comercial

Uma empresa percebe que o fechamento se concentra nos últimos dias do trimestre, com descontos altos. A explicação de evento culpa os vendedores. A de padrão mostra que isso acontece há anos. A estrutural revela que a remuneração é trimestral, o pipeline não é revisado com rigor e os clientes já aprenderam a esperar. O ponto de alavancagem pode estar na política de comissão e na disciplina de qualificação, não na cobrança ao time.

Como começar a pensar em sistemas

  1. Escolha um problema recorrente. Um que já foi resolvido mais de uma vez.
  2. Levante o histórico. Quando aconteceu, em que condições, com que consequências.
  3. Desenhe as relações de causa e efeito. Em uma folha, com setas, junto com quem vive o problema.
  4. Identifique as soluções anteriores. E os efeitos colaterais que elas geraram.
  5. Teste uma mudança estrutural pequena. E acompanhe por tempo suficiente para ver o efeito.

Conclusão: ver o sistema muda a pergunta

Senge não oferece uma fórmula, mas uma forma diferente de olhar. Para empresas que vivem resolvendo os mesmos problemas, essa mudança de olhar costuma ser o investimento de maior retorno: menos tempo apagando incêndios e mais tempo removendo o que os provoca.

LN
Leandro Novis
CEO — C-Advisor
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