Empresas brasileiras estão comprando licenças de IA na esperança de que a produtividade apareça sozinha. Drucker, que cunhou a expressão “trabalhador do conhecimento”, avisaria que a primeira pergunta não é qual ferramenta usar, mas qual é a tarefa.
Por Leandro Novis · C-Advisor
A contribuição mais importante da gestão no século XXI será aumentar a produtividade do trabalho do conhecimento e do trabalhador do conhecimento.
Peter Druckersíntese de “Knowledge-Worker Productivity”, California Management Review, 1999No século XX, a gestão multiplicou a produtividade do trabalho manual: estudar a tarefa, decompor, padronizar, treinar. No fim da vida, Drucker escreveu que o desafio do século XXI seria repetir esse feito com o trabalho do conhecimento — analistas, vendedores consultivos, advogados, engenheiros, gestores.
A dificuldade é que esse trabalho não se mede em peças por hora. Um bom vendedor B2B pode passar uma semana sem fechar nada e, na seguinte, fechar o contrato do ano. Um analista pode produzir dez relatórios inúteis ou um que muda a decisão da diretoria.
Drucker listou seis condições para o trabalhador do conhecimento ser produtivo. Elas servem como checklist antes de qualquer projeto de IA:
Definir a tarefa. A primeira pergunta é “qual é a tarefa?”. No trabalho manual ela é óbvia; no trabalho do conhecimento, raramente.
Dar autonomia. Quem faz o trabalho é responsável pela própria produtividade e precisa de liberdade para organizar o como.
Inovar continuamente. Melhorar o trabalho faz parte do trabalho, não é projeto à parte.
Aprender e ensinar continuamente. O conhecimento envelhece rápido; quem ensina aprende duas vezes.
Medir qualidade, não só quantidade. Dez propostas medianas valem menos que três propostas certas.
Tratar o profissional como ativo. Conhecimento é capital que vai embora todo dia às seis da tarde.
Automatizar uma tarefa mal definida só produz o erro mais rápido.
Compra-se a licença, faz-se um treinamento genérico e espera-se o resultado. Sem definir qual tarefa mudar, o uso fica restrito a resumir e-mail.
Drucker perguntaria se a tarefa precisa existir. Muito relatório e muita reunião automatizados com IA deveriam simplesmente ser cancelados.
Se a IA permite enviar cinco vezes mais propostas, a tentação é medir propostas enviadas. Drucker mediria propostas que viraram contrato e margem.
Há um ponto que Drucker não poderia antecipar, mas que decorre do raciocínio dele: se o conhecimento é o principal ativo, colocá-lo em ferramentas sem governança é arriscado. Dados de clientes, propostas e estratégia precisam de regras claras de uso, acesso e retenção — especialmente com a LGPD em vigor.
A IA muda o custo de executar tarefas de conhecimento. Não muda a necessidade de saber qual tarefa importa. As empresas que vão colher produtividade são as que fizerem primeiro o trabalho que Drucker propôs: definir, eliminar, medir qualidade e tratar o conhecimento como ativo. A ferramenta vem depois.
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