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Lucro e impacto não são opostos: o valor compartilhado de Porter para empresas brasileiras que ainda tratam ESG como custo

Para muitas empresas médias brasileiras, ESG ainda é uma exigência de grande cliente, um questionário a preencher ou uma linha de custo no orçamento. Porter propôs outra leitura: os problemas da sociedade são mercados ainda não atendidos.

Por Leandro Novis · C-Advisor

O propósito da empresa precisa ser redefinido como criar valor compartilhado, não apenas lucro em si.

Michael Porter e Mark Kramer“Creating Shared Value”, Harvard Business Review, 2011

Da filantropia à estratégia

Em 2011, Porter e Kramer criticaram a forma como as empresas tratavam questões sociais: como responsabilidade periférica, separada do negócio, feita para proteger a reputação. A proposta deles foi trazer esses temas para o centro da estratégia. Valor compartilhado são políticas e práticas que aumentam a competitividade da empresa ao mesmo tempo em que melhoram condições econômicas e sociais das comunidades onde ela atua.

A diferença em relação à responsabilidade social tradicional é que o valor compartilhado não é doação. É negócio. A empresa ganha mais justamente porque resolve um problema real.

Se a iniciativa social pode ser cortada na primeira crise sem afetar o resultado, ela ainda não é estratégia.

Os três caminhos de Porter e Kramer

01

Reconceber produtos e mercados

Necessidades sociais não atendidas são mercados. Saúde, educação, eficiência energética, inclusão financeira e segurança são exemplos de demanda real que muitas empresas ignoram por achar que não é rentável.

  • Liste problemas sociais ou ambientais que seus clientes enfrentam
  • Pergunte quais deles seu produto poderia ajudar a resolver
  • Teste uma oferta específica para esse problema
Exemplo brasileiroSoluções de eficiência energética para indústrias com conta de luz alta
GanhoNovo mercado e diferenciação
ArmadilhaDiscurso sem produto real
02

Redefinir a produtividade da cadeia de valor

Desperdício de energia, de água, de matéria-prima e de gente é custo. Reduzi-lo melhora a margem e o impacto ao mesmo tempo.

  • Mapeie os maiores desperdícios da operação
  • Calcule o custo financeiro de cada um
  • Priorize os que reduzem custo e impacto simultaneamente
Exemplo brasileiroRedução de perdas logísticas e retrabalho
GanhoMargem maior
ArmadilhaProjeto verde sem métrica de custo
03

Fortalecer o ecossistema local

Fornecedores frágeis, mão de obra pouco qualificada e infraestrutura precária limitam o crescimento da própria empresa. Investir neles é investir em capacidade.

  • Identifique o gargalo externo que mais limita sua operação
  • Desenhe uma ação conjunta com parceiros locais
  • Meça o efeito na sua própria produtividade
Exemplo brasileiroFormação técnica em parceria com escolas da região
GanhoTalento e fornecedores melhores
ArmadilhaAção pontual sem continuidade

Por que isso importa para a empresa média

Grandes compradores brasileiros e estrangeiros estão incluindo critérios ambientais e sociais em suas cadeias de fornecimento. Para a empresa média, isso pode ser só mais um questionário — ou uma oportunidade de se diferenciar de concorrentes que tratam o tema como burocracia.

01

Acesso a grandes contas. Fornecedores que demonstram práticas sólidas passam mais rápido por homologação.

02

Acesso a crédito. Linhas de financiamento com condições melhores para projetos de eficiência e sustentabilidade já existem no mercado brasileiro.

03

Atração de talentos. Profissionais jovens consideram propósito na escolha do empregador.

Como começar sem virar relatório

  1. Escolha um problema real ligado ao seu negócio. Não o problema mais nobre; o mais conectado à sua operação.
  2. Defina o ganho econômico esperado. Receita, custo, risco ou acesso a mercado.
  3. Defina o ganho social ou ambiental. Mensurável, não só declarado.
  4. Coloque um dono de negócio, não de comunicação. Quem responde pelo resultado econômico também responde pelo impacto.
  5. Conte a história depois de ter números. Comunicação vem como consequência, não como ponto de partida.

Conclusão: a próxima vantagem pode estar no problema do vizinho

Valor compartilhado não é bondade corporativa, e Porter nunca o apresentou assim. É uma forma de enxergar oportunidades que concorrentes deixam passar porque olham para problemas sociais como custo. Num país com tantas necessidades não atendidas, essa lente pode revelar mercados inteiros.

LN
Leandro Novis
CEO — C-Advisor
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