Uma empresa média de Joinville, Campinas ou Caxias do Sul raramente vence uma multinacional em escala. Mas pode vencer em algo que a multinacional não alcança: o ecossistema ao redor. Porter chamou isso de cluster.
Por Leandro Novis · C-Advisor
As vantagens competitivas duradouras em uma economia global estão cada vez mais em coisas locais.
Michael Porter“Clusters and the New Economics of Competition”, Harvard Business Review, 1998Com a internet, qualquer empresa pode comprar de qualquer fornecedor e vender para qualquer cliente. A intuição diria que localização deixou de importar. Porter mostrou o contrário: tudo o que pode ser comprado à distância deixa de ser vantagem, porque todos podem comprar. O que sobra como vantagem é o que não viaja — conhecimento, relacionamentos e motivação concentrados num lugar.
Cluster é uma concentração geográfica de empresas, fornecedores, instituições de ensino e entidades de um mesmo campo. O Brasil tem muitos: metalmecânico no Sul, calçadista no Vale dos Sinos, tecnologia em Florianópolis e Recife, agronegócio no Centro-Oeste, energia no Rio.
O que pode ser comprado em qualquer lugar não é vantagem. O que só existe aqui, é.
Produtividade. Acesso mais rápido a fornecedores especializados, mão de obra treinada e informação de mercado.
Inovação. Clientes e concorrentes próximos tornam visíveis as novas necessidades antes que apareçam nos relatórios.
Formação de novos negócios. Riscos menores para lançar algo novo, porque recursos e parceiros já estão ali.
Muitas empresas fazem parte de um cluster sem perceber. O primeiro passo é enxergar quem está ao redor e o que cada um oferece.
Para um cliente, contratar uma empresa ligada a um ecossistema forte reduz risco: há peças, técnicos, parceiros e referências por perto.
Concorrentes do mesmo cluster podem dividir custos em formação, certificação, compras e exportação sem abrir mão da disputa por clientes.
Universidades, escolas técnicas e o Sistema S formam os profissionais que todas as empresas da região vão disputar.
O trabalho remoto reduziu a importância de algumas proximidades, mas não de todas. Relacionamento com cliente, visita técnica, implantação e confiança continuam se beneficiando de presença. E o conhecimento tácito — aquele que não está escrito em lugar nenhum — ainda circula melhor entre pessoas que se encontram.
Porter mostrou que a globalização não eliminou a geografia; tornou-a mais seletiva. Para a empresa média brasileira, o cluster é uma das poucas vantagens que um concorrente global não compra com dinheiro. Usá-lo exige sair da mentalidade de lutar sozinho e passar a construir junto com quem está ao redor.
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