Juros altos, burocracia, carga tributária complexa, infraestrutura cara. O empresário brasileiro tem uma lista longa de motivos para competir em desvantagem. Porter estudou dez países e chegou a uma conclusão incômoda: pressão, quando bem usada, é exatamente o que cria vantagem.
Por Leandro Novis · C-Advisor
A competitividade de uma nação depende da capacidade de sua indústria de inovar e se aprimorar.
Michael Porter“The Competitive Advantage of Nations”, Harvard Business Review, 1990Em The Competitive Advantage of Nations, Porter perguntou por que certos países produzem empresas líderes mundiais em setores específicos. A resposta não estava em mão de obra barata nem em recursos naturais abundantes. Estava num sistema de quatro forças que, juntas, pressionam as empresas a inovar continuamente.
A lição para a empresa individual é poderosa: as mesmas forças que parecem obstáculo podem ser a fonte de uma vantagem que concorrentes de ambientes mais confortáveis não conseguem replicar.
Condições de fatores. Pessoas, conhecimento, capital e infraestrutura. Porter observou que a escassez de um fator muitas vezes força a inovação para contorná-la.
Condições de demanda. Clientes locais exigentes forçam a empresa a melhorar antes dos concorrentes de outros mercados.
Setores relacionados e de apoio. Fornecedores e parceiros competentes por perto aceleram inovação e reduzem custo.
Estratégia, estrutura e rivalidade. Concorrência local intensa obriga a melhorar; monopólio local acomoda.
A empresa que aprende a vencer o cliente mais difícil do mercado brasileiro está pronta para quase qualquer outro.
No B2B brasileiro, os clientes mais difíceis — grandes contas, setores regulados, compradores profissionais — costumam antecipar o que o resto do mercado vai pedir em dois ou três anos.
Crédito caro e mão de obra qualificada escassa forçam empresas a serem mais enxutas. Quem sistematiza essa disciplina ganha uma vantagem de custo que dura.
Porter mostrou que setores fortes crescem junto com fornecedores fortes. Na empresa média, fornecedor costuma ser tratado só por preço.
Mercados locais muito disputados parecem ruins para a margem. Porter mostra que são também os que mais forçam evolução.
Porter acrescenta dois elementos externos ao diamante: o acaso, como choques de câmbio ou mudanças tecnológicas, e o governo, que influencia as quatro pontas por regulação, compras públicas e infraestrutura. A reforma tributária brasileira é um exemplo: vai mudar custos, preços e cadeias de fornecimento. Quem tratar a mudança como oportunidade de redesenho, e não só como dor contábil, sai na frente.
O diamante de Porter não nega que o ambiente brasileiro é duro. Mostra que ambientes duros produzem as empresas mais competitivas — desde que elas usem a pressão para inovar, e não só para reclamar. A pergunta muda de “por que é tão difícil competir aqui?” para “o que esse mercado nos obriga a fazer melhor que ninguém?”.
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