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A burocracia que protege sua empresa também a impede de mudar: Gary Hamel e a inovação no modelo de gestão

A empresa cresceu e, junto com ela, cresceram as aprovações, os comitês, as planilhas de controle e as camadas hierárquicas. Tudo foi criado para reduzir risco. O resultado, porém, é uma organização lenta, que demora meses para decidir o que o concorrente decide em semanas.

Por Leandro Novis · C-Advisor

A burocracia foi inventada para controlar; o desafio de hoje é construir organizações capazes de se adaptar.

Gary Hamel e Michele Zaninisíntese de Humanocracy, 2020

O modelo de gestão também envelhece

Gary Hamel, professor e pensador de estratégia, ficou conhecido nos anos 1990 pelo conceito de competências essenciais, desenvolvido com C. K. Prahalad. Em trabalhos posteriores, como The Future of Management, ele chamou atenção para algo que as empresas raramente inovam: a própria forma de gerir.

Hamel argumenta que muitas práticas de gestão — hierarquias rígidas, planejamento anual, orçamentos inflexíveis, aprovações em cascata — foram desenhadas para um mundo mais estável. Elas continuam em uso por inércia, não porque sejam as melhores para o ambiente atual.

Toda empresa inova em produto. Poucas inovam em como decidem.

O custo da burocracia

Em Humanocracy, escrito com Michele Zanini, Hamel mostra que a burocracia tem custos que raramente aparecem no DRE:

01

Lentidão. Decisões que dependem de muitas aprovações chegam tarde.

02

Desperdício de talento. Profissionais capazes ficam limitados a executar o que foi decidido acima deles.

03

Resistência à mudança. Estruturas criadas para controlar tendem a proteger o status quo.

04

Desengajamento. Pessoas sem autonomia contribuem com menos do que poderiam.

Princípios para uma gestão mais adaptável

01

Autonomia com responsabilidade

Hamel e Zanini defendem que pessoas próximas do cliente tenham mais poder de decisão, com responsabilidade clara pelos resultados.

  • Identifique decisões que poderiam ser tomadas mais perto do cliente
  • Defina limites e critérios em vez de aprovações
  • Acompanhe resultados, não cada passo
GanhoDecisões mais rápidas
RiscoAutonomia sem clareza de limites
Primeiro passoRevisar alçadas de aprovação
02

Menos camadas, mais coordenação

Cada camada hierárquica adiciona tempo e filtra informação. Reduzir camadas exige novas formas de coordenação.

  • Mapeie quantas camadas uma decisão comum atravessa
  • Elimine aprovações que não acrescentam análise
  • Use rotinas de coordenação entre equipes
GanhoInformação mais fiel
RiscoSobrecarga dos gestores restantes
Primeiro passoMapa de decisões frequentes
03

Experimentação contínua

Em vez de grandes planos aprovados uma vez por ano, pequenos experimentos que permitem aprender rapidamente.

  • Reserve recursos para experimentos
  • Defina critérios simples de sucesso
  • Escale o que funciona, encerre o que não funciona
GanhoInovação mais barata
RiscoExperimentos sem acompanhamento
Primeiro passoUm experimento por área por trimestre
04

Transparência

Informação compartilhada permite que mais pessoas tomem boas decisões sem depender da hierarquia.

  • Compartilhe indicadores relevantes com as equipes
  • Explique o raciocínio por trás das decisões
  • Abra espaço para questionamentos
GanhoDecisões melhores na ponta
RiscoInformação sem contexto
Primeiro passoPainel de resultados acessível

Uma ponte com o Brasil

Michele Zanini, coautor de Humanocracy, é brasileiro, e o livro discute casos de organizações que reduziram drasticamente a burocracia. Para empresas médias brasileiras, a lição não é copiar modelos radicais, mas questionar práticas herdadas: quantas aprovações, relatórios e comitês existem só porque sempre existiram?

Para começar

  1. Liste as aprovações necessárias para decisões comuns. Como conceder desconto, contratar ou comprar.
  2. Pergunte o que cada aprovação protege. E se há uma forma mais simples de proteger.
  3. Elimine ou simplifique três. E acompanhe o efeito.
  4. Dê autonomia a uma equipe piloto. Com limites claros.
  5. Revise o modelo de gestão uma vez por ano. Como se revisa a estratégia.

Conclusão: a forma de gerir é uma vantagem competitiva

Hamel lembra que empresas não competem só com produtos e preços, mas também com a velocidade e a qualidade das suas decisões. Num ambiente brasileiro que muda rápido, uma gestão menos burocrática pode ser a vantagem mais difícil de copiar.

LN
Leandro Novis
CEO — C-Advisor
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